A nobre missão das garrafeiras tradicionais

A distribuição é uma questão fundamental que não raras vezes dita o sucesso ou insucesso dos produtores de vinho. Os canais que garantem o acesso ao cliente final não só permitem o escoamento da produção, como adequam e definem o posicionamento pretendido para cada marca. Para os consumidores, o status quo competitivo neste domínio do mercado influencia directamente factores como a variedade, qualidade e preço dos vinhos disponíveis para venda, quer nas grandes superfícies, quer nas garrafeiras de rua.

Desde há anos que a concentração do mercado da distribuição em dois grandes players, duas grandes cadeias de supermercados e hipermercados, tem moldado a montra da produção portuguesa, onde podemos encontrar os vinhos direccionados para o grande público. As marcas que queiram tomar parte na larga visibilidade que este canal lhes permite têm, no entanto, que se sujeitar às regras do jogo: a imposição de fornecimentos regulares de grande quantidade, rigidez contratual, guerra de preços, promoções e descontos mirabolantes, politica de pagamentos desfavorável para o produtor, etc. Nem todas as empresas detêm capacidade produtiva ou poder negocial para se baterem neste ambiente e captarem as vantagens comerciais que o mesmo lhes pode oferecer.

Assim, as marcas pequenas, por inevitabilidade ou vontade própria, descartam as mais das vezes este canal, preferindo a presença em garrafeiras especializadas e de confiança, onde acreditam que os seus vinhos serão mais bem acompanhados e apresentados ao consumidor – coisas impensáveis num hipermercado com milhares de clientes e milhares de produtos dispersos por milhares de metros quadrados. As garrafeiras servem este e um outro propósito importante: o de orientação e guia – uma verdadeira missão num país em que a enorme diversidade vitivinícola, tão completa e compreensiva como confusa, se traduz numa miríade de marcas que inundam o mercado, repelindo o consumidor menos experiente. O cliente interessado usa mil e uma formas para navegar em segurança entre as centenas de lançamentos e novidades: revistas da especialidade, reviews, sugestões de amigos, para não falar do tão comum e castrador apego a regiões/perfis de vinho/ castas, entre outras bóias de salvação.

Há dois anos surgiu uma garrafeira que tem congregado uma legião de enófilos do Porto, desejosa por provar os mais interessantes expoentes do panorama vínico de aquém e além terras. A Garage Wines, que na próxima sexta feira comemora o seu 2º Aniversário, realiza todas as semanas (normalmente às 19h de sexta-feira) provas acompanhadas (wine flights) que usualmente contam com os enólogos ou produtores dos vinhos em destaque. Por esta garrafeira de Matosinhos já passaram nomes como Quinta Nova, Fiuza, Soalheiro, Casa da Passarela, Muxagat, Van Zeller, Quinta da Covela, Três Bagos, Quinta do Portal, Andresen, Noval, Ramos Pinto, Maritávora, Vesúvio, Dona Maria, Quinta do Passadouro, Cálem, Campolargo, Real Companhia Velha, entre tantos, tantos outros.

Mas parte do appeal desta garrafeira singular está também no seu declarado cosmopolitismo. Pelas suas provas semanais fizeram escala vinhos de França, Chile, Califórnia, Nova Zelândia, Espanha e Alemanha. Com todo este espólio vínico à mão de semear dos enófilos portuenses (sim, as provas são gratuitas!), o que mais se pode pedir de uma tradicional garrafeira senão que continue o bom trabalho, levando a nobre missão das tradicionais garrafeiras bem para lá do convencional – ao semanalmente excepcional.

Pedro Almeida Leitão

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