Um Porto servido fresco no Verão

O Port Wine Day tem lugar no próximo dia 10 de Setembro, quinta-feira, comemorando a data em que a Região Demarcada do Alto Douro foi formalmente criada pelo Marquês de Pombal, em 1756. É um evento promovido pelo Instituto dos Vinhos do Douro e do Porto e conta com uma grande variedade de iniciativas realizadas um pouco por toda a cidade. Entre 3 e 13 de Setembro os portuenses podem aproveitar os jantares vínicos, provas comentadas, masterclasses, seminários, e outras actividades, num programa repleto de bom vinho generoso da mais antiga região demarcada do mundo.

A data escolhida, apesar de não ser óbvia, é uma data feliz. Desde logo pela homenagem ao momento fundador da era moderna no Douro. Mas igualmente pelo calendário vitícola. É nesta altura que as vindimas na região atingem o pico de azáfama, numa corrida contra o tempo para agarrar aquele fugaz e irrepetível ponto de maturação que concede ao vinho toda a sua graça e virtuosismo. Ora, enquanto nas vinhas todos se desdobram em esforços para garantir o produto de um ano de trabalho, já a jusante, na cidade, prefere-se celebrar condignamente (leia-se, refasteladamente) os mais requintados prazeres do vinho. E pelo copo se perverte o adágio que tanto enche de orgulho a gente tripeira e que, corrompido, protesta agora: enquanto o Douro trabalha, o Porto diverte-se.

Esta data é também feliz pelo desafio que lança aos seus convidados. No nosso país, o vinho do Porto é tido como uma bebida sazonal, própria da época natalícia e do frio do Inverno. É o vinho das prendas na altura das festas, o acompanhante do queijo da Serra da Estrela e dos pudins à sobremesa da Consoada. Infelizmente, quanta gente há gente que se ofende no conservadorismo dos seus hábitos quando lhe oferecem um copo de Porto fora de época. Pois bem, o desafio que o Porto Wine Day faz à cidade é precisamente este: venha surpreender-se com a versatilidade do vinho do Porto. Venha beber o – assim convencionado – “vinho do Natal” numa soalheira tarde de Verão.

Num dos contactos iniciais que tive com a prova de vinho do Porto (patrocinada por um conceituadíssimo produtor da região) deixei inadvertidamente escapar um aparvalhado e felizmente inaudível «oh!» de espanto quando o enólogo retirou uma garrafa de tawny 20 anos de um frigorífico cheio de vinhos brancos. Quando provei o vinho e deixei que toda a sua elegância de boca – um novelo de tonalidades de madeira, caramelo e tabaco, temperados por uma acidez perfeita na sua envolvência e vigor, espevitada pelo frio ligeiro em que o vinho tinha sido dobrado – percebi o ridículo da convenção. Desta como de tantas outras que fui aprendendo a largar.

Foi uma lição que logo estendi a todo o espectro vinícola do Porto: do branco seco ao ruby, do rosé aos tawnies velhos e até mesmo ao vintage. Naturalmente, não devem ser tratados de igual forma, não é essa a conclusão a tirar. Antes a de que, em nome do gosto e do prazer, é permitida a experimentação à revelia das convenções. Das que dizem, por exemplo, que o Porto é no final de refeição – mas porque não de início, como aperitivo? Em França é a forma preferida de o tomar. E que bem saberá nestes dias quentes um Porto rosé bem fresco, ou um branco seco com água tónica e hortelã.

Se o LBV foi inventado para retirar a pressão ao vintage e dado às gerações sem tempo para a conversão do vinho em lenda pela passagem dos anos, então que se aproveitem as oportunidades para o trazer para a mesa com mais frequência, servindo aos amigos um copo de late bottled em vez do tinto vulgar que se guarda para “estas ocasiões”, acompanhado por um prato de queijo ou por scones e compotas. Uma ou várias vezes, porque nestas longas noites de calor que ainda duram as ceias surgem hora a hora, ao ritmo das conversas e do riso.

No próximo dia 10 brindemos ao 259º aniversário da fundação da demarcação, e bebamos com a certeza de que, findo o Verão, permanecerão as conversas, os amigos e o vinho.

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