O tempo das vindimas no Douro em meados do século XIX

No texto de hoje continuaremos na companhia do Barão de Forrester, depois de na semana passada nos ter conduzido Douro acima desde o Porto até à Régua. Nesta segunda e última etapa, partiremos da cidade de Lamego, sulcando a corrente ora mansa ora terrível do rio, e terminando a nossa viagem numa das quintas lendárias do Douro, o Vesúvio, obra maior da eterna rainha da região, a Ferreirinha.

1. Passeio até Lamego. Deixando as margens do Douro, o Barão ruma a sul seguindo os rios Varosa e Balsemão até à milenar cidade de Lamego.

As margens do Corgo não deixam de ser pitorescas, mas para vistas magníficas e sublimes, e que talvez seja difícil encontrar iguais em parte alguma do mundo, é forçoso que todo o viajante de bom gosto dê o seu passeio a cavalo pelos sítios de Valdigem, Sande e Serra de Balsemão até à antiga cidade de Lamego, voltando pela estrada real do Portelo, outra vez para o Douro.

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2. Do Pinhão à Valeira. Já em pleno Cima Corgo, a paisagem cobre-se de assombrosa beleza no desenho dos patamares de vinha contornando os montes e vales abertos em perpétua vertigem sobre o rio. Nesse mês de Setembro de 1854, tempo de vindimas no Douro, a azáfama seria certamente muita: nos socalcos os cestos transbordantes subindo e descendo à força de ombros, pelas adegas o fervor dos mostos em ebulição nos lagares, e os enxames de trabalhadores que só teriam descanso nas horas altas da noite.

Em ambas as margens (até aos ribeiros de S. Martinho, acima da quinta do Zimbro) há belas quintas de vinho e azeite, e alguns pomares. No Fiolhal há bastantes amoreiras, das quais se faz alguma seda, e os pomares em S. Mamede, logo ao pé, produzem a melhor laranja da província. (…) As terras nestes sítios são mais delgadas do que as do Baixo Corgo e os calores são muito mais fortes. O bastardo e o alvarilhão, que produzem bem no distrito de Penaguião, não se dão aqui tão bem, e por isso, [como] o gosto do mercado vinhateiro é sem duvida [por] vinhos encorpados e com muita cor, se cultivam o Souzão, a Touriga, Tinta Francisca, Tinto Cão, Mourisca mais outras tintas. Os vinhos brancos ficam mais desviados das margens do rio.

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3. Vindimas. Deixemos o Barão descrever aquilo que só hoje podemos imaginar: uma vindima no Douro de oitocentos, repleta do pitoresco e do folclore que o tempo desbotou ou calou de vez.

As vindimas estão a findar e por toda a parte os excessivos calores tem secado muito o vinho, talvez uma quinta parte da produção total. Tenho dito que as margens do rio, por toda a extensão do país vinhateiro (que vem a ser oito léguas) tem poucos habitantes e não sendo no tempo das vindimas, apenas fica um caseiro em cada adega. Agora porém o país parece outro, ranchos de trabalhadores com cestos cheios de uvas às costas, comboios de bestas carregadas com odres, conduzindo vinho de umas adegas para as outras; centenas de mulheres nas vinhas, vindimando as uvas e cantando as suas modinhas, os homens nos lagares pisando as uvas ao som do tambor, viola e gaita de fole; é o que se vê e se ouve em todas as direcções.

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4. Cachão da Valeira. Para nós, leitores deste tempo, a passagem seguinte chega-nos cheia de irónica melancolia. Foi neste ponto do rio que em 1861 Joseph James Forrester veio a morrer, afogando-se nas fortes correntes que ali se formam. Quis o destino que o homem que tanta dedicação votou ao Douro encontrasse a paz derradeira no leito das suas águas. É assim tão deslumbradamente que ele descreve o lugar onde, apenas 7 anos depois, encontraria o seu trágico fim.

O Cachão da Valeira é o sítio mais romântico e importante de todo o rio Douro. Até 1791 um enorme rochedo que aqui fazia “cachão” [queda-d’água], impossibilitava a navegação direita por toda a extensão do rio. Então, Tua era um lugar importante por ser o cais aonde se descarregavam os géneros que tinham de ir por terra para cima do Cachão. (…) Que sitio este para o artista, para o homem de gosto, admirador da natureza inculta, para o geologista, arqueólogo ou naturalista! Daqui ao lado do nascente os castelos de Numão e Anciães, situados em elevados terrenos de granito, conquistam um e outro uma légua de distancia. (…) aqui descansei num gozo perfeito, esquecendo-me de amigos e inimigos, dos filhos, parentes, negócios e cuidados; entregue ao novo mundo criado na minha imaginação, à admiração da natureza e dela ao Criador de tudo. Ah! que satisfação não teria metade dos habitantes deste país se pudessem também gozar destas delicias(…).

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5. Quinta do Vesúvio. É nesta quinta (uma das maravilhas do mundo) que, ao que parece, o Barão termina a sua viagem. É no repouso e amizade da família Ferreira – e em particular de sua grande amiga e devota da região, Dona Antónia – que Joseph James dá por terminada a sua série de cartas aos leitores do jornal «O Commercio». Hoje, a Quinta do Vesúvio mantém o seu semblante original e o seu lugar no panteão das mais veneráveis quintas da região e do mundo. Sendo actualmente detida pela Symington Family Estates, os seus vinhos continuam a marcar de glórias, ontem como hoje, a história do Douro e do vinho do Porto.

A quinta das quintas – uma das maravilhas do mundo, outrora parte de uma cordilheira de montanhas incultas, agora servindo de monumento do quanto podem vencer a inteligência, perseverança e o génio empreendedor do homem. É quase inacessível por terra, excepto a cavalo, pela falta de estradas; mas quem a visitar pelos caminhos actuais, depois de terem andado umas poucas de horas num deserto, entra no que bem se pode chamar paraíso. Um portão grande dá entrada para esta quinta; e magnificas e largas ruas conduzem por toda a extensão da propriedade e, com especialidade até à margem do rio, onde há uma boa casa de residência, excelente adega, e lagares espaçosos, armazéns, casas próprias para recolher os trabalhadores (…). Esta belíssima quinta (…) pode ser plantada para produzir acima de 700 pipas de excelente vinho maduro e encorpado, que também tem comprador certo, apesar de (…) ser no cais da Valeira onde acaba a demarcação dos vinhos de embarque. Também a quinta pode produzir 80 a 100 pipas de azeite, 70 a 80 arrobas de amêndoa, algum milho e centeio.

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nota 1: este texto baseia-se no artigo de Norman R. Bennett «Joseph J. Forrester’s viagem para o Douro (1854)», publicado em 2005 e disponível online.

nota 2: por facilidade de leitura, optou-se por adaptar as citações originais de Forrester à grafia actual.

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