Uma viagem ao Douro na companhia do Barão de Forrester

Joseph James Forrester é um dos vultos maiores da história do vinho do Porto. Nascido em 1809 em Inglaterra e falecido em 1861 num acidente de barco no fatídico Cachão da Valeira, em pleno Alto Douro, foi uma figura de destaque em todos os assuntos do vinho. Enquanto comerciante consagrou a reputação internacional dos vinhos da firma Offley Forrester, que ele próprio se encarregava de seleccionar criteriosamente na região demarcada. Como enófilo lutou pela preservação do carácter genuíno dos vinhos do Douro contra as adulterações tidas, à época, como inevitáveis e até desejáveis – combateu ferozmente as práticas de adicionar baga de Sabugueiro, como artifício para intensificar a cor, e (espante-se!) a aguardentação dos mostos, por considerar uma deturpação das naturais qualidades do vinho. À cartografia nacional legou o primeiro mapa da Região Demarcada do Douro. Como pintor, fotógrafo e aguarelista, deixou-nos imagens vibrantes da intensa vida burguesa do Porto de oitocentos.

Foi também um cronista do seu tempo. No texto que se segue, seguiremos os seus passos numa viagem que, em 1854, convidou os leitores do jornal portuense «O Commercio» a com ele empreenderem Douro acima num tradicional barco rabelo. Ao longo de 12 cartas, Forrester descreve a paisagem, os hábitos das populações, os pontos de interesse, recomendando passeios e escapadas. A primeira carta data de 14 de Setembro desse ano. Concluíam-se as vindimas, e o Barão rumava à região ao encontro dos lavradores da sua confiança, que lhe transmitiriam as boas novas e os lamentos da lavoura – sobretudo lamentos, já que desde o início dos anos cinquenta que a primeira grande praga do Douro contemporâneo, o oídio, vinha devastando as colheitas em trágicas proporções. Neste texto, acompanharemos a primeira parte da sua viagem, deste o Porto até à Régua, seleccionando algumas passagens e locais como sugestão para visitas e passeios futuros.

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1. O quotidiano das populações. Forrester sempre foi muito crítico do estado de desenvolvimento do país rural, censurando abertamente os governantes por não proverem ao progresso do nível de vida dos seus habitantes. Os retratos da vida campesina que nos deixou são pungentes na sua crueza, onde soa sempre o genuíno lamento pela miséria que vê discorrer à sua frente. Nas imediações de Gramido, escreve:

É para notar que em toda esta extensão do rio, enquanto os homens se ocupam na agricultura, as mulheres conduzem os seus barcos com géneros ou passageiros para o Porto. Estas mulheres são muito hábeis na sua ocupação; a maneira como elas cantam suas modinhas, que geralmente são originais, faz crer com especialidade ao estrangeiro, que  são as criaturas mais felizes do mundo que ignoram inteiramente o que é a fome e a miséria. São muitos os dias que nem dois patacos ganham – porém continuam a  cantar e parecem contentíssimas com a sua sorte.

E numa outra carta, já em pleno distrito vitícola:

Os habitantes pela maior parte vivem miseravelmente – passam muita fome – e com muito pesar sou obrigado a declarar que os próprios porcos são mais bem tratados do que são os seus donos, acontecendo muitas vezes que estes deixam de comer o seu pão para o dar aos seus bacorinhos.

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2. Porto Manso. Localizado no encontro do rio Bestança com o Douro, Porto Manso é um sítio de incontornável beleza paisagística no percursos entre a for do rio e a Régua. Sobre ele escreve o Barão:

Porto Manso é um povo de bastante importância e onde se encontram os arrais [condutores dos barcos rabelos] mais relacionados com o grande comércio de vinhos do Porto. Há ali boas casas, boa e rica gente, e o sítio é delicioso e muito produtivo. Na margem esquerda há os povos de Souto do Rio e Porto Antigo, sítios muito pitorescos, e onde se carrega a maior parte das madeiras de castanho que vão para a cidade do Porto.

Um monumento que o Forrester terá conhecido em estado de abandono mas que, ainda assim, achou merecedor de destaque é o Mosteiro de Santo André de Ancede, situado a alguns minutos de carro de Porto Manso:

O convento d’Ancede situado num belo vale, ainda que em posição elevada, a um quarto de légua de Porto Manso, é digno de atenção; mas o seu estado actual de abandono e a ausência dos frades [no seguimento da extinção das ordens religiosas em 1834], contrastam de uma maneira singular com o seu aspecto ordinário em outros tempos.

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3. O banquete. Em Ancede, o Barão aproveita para visitar um dos seus mais antigos colaboradores, o arrais António Dias, que Forrester descreve como o mestre «mais hábil no Douro». Aproveitando a ocasião para retribuir os longos anos de trabalho e amizade, o António dias oferece-lhe um banquete que, senão pela tentação da curiosidade, teríamos forçosamente de o transcrever pelo pecado da gula:

Em muitos poucos países tenho assistido a jantares mais bem servidos e abundantes do que o foi um, que o meu compadre aqui me deu. Todas as cobertas [pratos] foram servidas com delicadeza e asseio. Tivemos excelente caldo, vaca cozida e arroz – galinhas cosidas com presunto e salsichões – enorme peru assado com o seu picado à Ancede – dois gansos formidáveis – alguns frangos – uma perna de vitela – presunto de Melgaço feito em fiambre – boa cernelha de vaca assada – três coelhos bravos ensopados – dois excelentes gizados – um leitão muito tostadinho – e meia dúzia de perdizes mortas com toda a cerimónia da antiga lei, em 1 de Setembro. Depois seguiram pudins, pão-de-ló (ou cavaca fina), biscoitos, morcelas, melancia, melão, laranjas, limas, maçãs, pêras, pêssegos e doce de calda; – porém nem um só cacho de uvas, nem tão pouco uma garrafa de vinho!

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4. Caldas de Moledo. Uma das mais importantes estâncias termais da região, a vila das Caldas de Moledo tinha por assídua visitante Dona Antónia Ferreira, a Ferreirinha, que encontrava nesta paz à beira rio e nas suas águas medicinais o merecido descanso dos tempos de lavoura. Foi ela que aqui fez levantar um palacete de veraneio com capela, contribuindo para a beleza geral do panorama da vila.

O lugar das Caldas defronte de Moledo deriva o seu nome das águas sulfúricas que aí nascem perto do Douro, e até no próprio leito do rio. (…) Agora há uma boa hospedaria, bons quartéis para as famílias, lojas de peso bem sortidas, e como a posição bela, o ar saudável, e a estrada magnifica, a afluência de gente irá cada vez em progressivo aumento.

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5. Miradouro de São Silvestre (Mesão Frio). Aventureiro intrépido, apaixonado pelo mundo natural, o Barão não perdia uma oportunidade para percorrer montes e vales se um penedo distante lhe oferecesse as vistas fulgurantes que tanto o inspiravam – e que, sobrevoando as léguas paradisíacas do Douro, nos continuam a arrebatar ainda hoje.

Vale bem a pena que o viajante suba aos cumes das serras de São Silvestre e de São Gonçalo de Mourinho por ser da primeira donde ele poderá gozar belíssimas vistas das margens graníticas do rio, e da segunda donde se pode descobrir todo o país vinhateiro de Baixo Corgo. De S. Silvestre vê-se a natureza em toda a sua majestade; enquanto que de São Gonçalo de Mourinho não há um palmo da terra que não fosse levantada três vezes por ano pela enxada do cultivador.

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museu

6. Peso da Régua. Chegamos, finalmente, à capital da Região vinhateira, ainda hoje o seu mais importante entreposto comercial. Foi aqui também que a antiga Companhia Geral da Agricultura das Vinhas do Alto Douro, fundada pelo Marquês de Pombal em 1756, instalou os seus grandiosos armazéns. O edifício que durante tantas décadas albergou os milhares de pipas de vinho da Companhia, tem hoje em seu lugar o mais importante acervo documental e patrimonial sobre a história da região – o Museu do Douro.

A Régua vai cada vez em aumento, especialmente na margem do rio aonde se tem construído muitos e belos armazéns para os depósitos de vinho. A principal casa é a da Companhia da Agricultura da Vinha do Alto Douro – na qual se fazem as reuniões das provas. Antigamente era muito curioso estar no Peso [parte alta da vila] ou na Régua [zona ribeirinha] na época da feira, quando os lavradores vinham vender e os negociantes comprar os vinhos novos. Há muito boas casas tanto na Régua como no Peso, e entre elas há fortunas colossais Todos os habitantes têm mais ou menos vinhas, e as pessoas principais são comissários de varias casas de comércio do Porto.

nota 1: este texto baseia-se no artigo de Norman R. Bennett «Joseph J. Forrester’s viagem para o Douro (1854)», publicado em 2005 e disponível online.

nota 2: por facilidade de leitura, optou-se por adaptar as citações originais de Forrester à grafia actual.

One Reply to “Uma viagem ao Douro na companhia do Barão de Forrester”

  1. joseph forrester era um homem controverso que defendia a genuinidade do vinho do porto pois como dizia ” a boa fazenda rapidamente encontra compradores”.

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