A mulher que quis ensinar aos homens o gosto do vinho

Maria de Lourdes Modesto, a nossa maior gastrónoma, é também uma assumida enófila, prosélita do bem-beber e, sobretudo, do bom-beber. É uma paixão antiga sua. Em 1962, com apenas 32 anos, a jovem apresentadora é convidada pela Junta Nacional do Vinho (a entidade de regulação do sector vitivinícola, orgão maior da arquitectura corporativa do Estado Novo nesta área) a discursar no 25º aniversário das Jornadas Vitivinícolas, evento de grande pompa e circunstância que contou com a presença das mais elevadas eminências do sector dos vinhos, da administração pública e do governo. Intimidante convite! – sobretudo para uma jovem mulher independente e sofisticada que se esforçava por singrar num país patriarcal, acabrunhado e rústico. Maria de Lourdes soube responder ao desafio dando a todos uma lição de erudição, requinte e, sobretudo, de respeito pelas mulheres. São alguns parágrafos desse discurso que aqui transcrevemos.

Uma mulher a falar de vinho? Mais ainda: uma mulher que se propõe, numa assembleia de homens, a fazer o elogio do vinho? Porque não? Pessoalmente, estou convencida de que o vinho é um gesto civilizado ao serviço da civilização; e pessoalmente, também, como representante de uma civilização que tem sido construída e estimulada pelo homem, sei que o vinho – como a mulher – tem sido o companheiro fiel, o amigo elegante, o camarada requintado, desse mesmo homem e dessa mesma civilização.

Nas seus emissões semanais na RTP, Maria de Lourdes não se limitava a inventariar receitas, a recomendar tempos de cozedura, a acertar temperos. Não, o papel do gastrónomo é também o de divulgador da cultura da nossa cozinha, em todos os seus domínios: da estética à história, dos rituais de socialização à etnografia e à literatura. O vinho, como a comida, é um elemento que se insurge no tecer das horas, presente no correr dos dias e nos passos dos homens – e, claro, também das mulheres. Como ela nos explica, é desse material que se constrói a História.

Foi Calígula quem ordenou a proscrição do decreto de Rómulo [que interditava o vinho ao sexo feminino] e, segundo se lê nas antigas crónicas, foi Maria Agripina a primeira mulher autorizada a beber vinho em público. Parece-me, também, que Maria Agripina, dona de virtudes e de elegâncias, foi a primeira mulher a ensinar boas-maneiras no beber, a escolher os recipientes para o vinho, e o vinho para cada tipo de comida. Foi, também, a partir daí que o vinho deixou de ser pertença exclusiva das orgias para entrar no trânsito normal das necessidades e gostos de cada casa.

A partir desta deixa, Maria de Lourdes discorre sobre o papel – aliás, sobre a missão – das mulheres na educação do vinho, tão necessária nesse Portugal de sessentas, orgulhoso por dar pão a um milhão de lavradores e comerciantes do vinho, mas, em boa verdade, tão pouco versado na arte do saber beber e do saber comer. Seriam as mulheres, com a sua delicadeza e gosto próprio, as grandes educadoras do país nas lições da qualidade e da temperança.

 Se saber beber é uma arte e uma virtude (…) é verdade que, em Portugal, existe o culto pelo gosto do vinho? o culto pelo beber educado, o culto do prazer que o vinho dá, assim bebido, com prazer? Creio que não. Como creio ser indispensável a articulação de uma campanha que conduza a esse prazer pela bebida bem bebida, a esse gosto infinito pelo que é bom, quando bem bebido… A esse gosto infinito, claro, porque os gostos (o gosto de beber vinho) são infinitos quando não são banalizados. Eis porque o vinho é um gesto de civilização. Eis, também, porque uma mulher continua a falar de vinho: porque gosta dos gostos educados, das belas coisas da terra, dos cultos que traduzem, afinal, um sintoma expressivo de civilidade – e de civilização. Maria Agripina foi a primeira mulher a ensinar boas-maneiras no beber. Será que, ainda hoje, as mulheres têm de se reunir num convénio para ensinar aos homens do seu tempo que beber é uma arte de bela-elegância, que o vinho não é um miasma do vício, mas um paladino do prazer?

Nas suas frases bem urdidas e aprumadas, na ousadia com que interpela tão ilustre e viril assistência, este apelo é quase revolucionário. Do alto dos seus cadeirões departamentais, ou dos seus escritórios comerciais em Lisboa ou no Porto, ou das suas quintas e herdades no Minho, Douro, Estremadura ou Ribatejo, os homens responsáveis pelos destinos do vinho português ouvem, atónitos, uma jovem mulher afirmar, em tom repreendedor e directo: este não é o caminho certo.

Em 2015 temos por assente a aposta ganha nos vinhos de qualidade, bandeira de um novo Portugal vitivinícola que se mede pela escala dos grandes produtores – França, Itália, Espanha… Mas em 1962, no tempo em que Maria de Lourdes discursava, o país exigia das suas vinhas sempre mais, mais e mais – não melhor, apenas mais. Para as elites coevas, a quantidade era sinal de sucesso. Num país tão rico em diversidade vitivinícola, com regiões tão idiossincráticas, circunscritas a vales ou serras ímpares no território, produtor de vinhos sempre diferentes, sempre surpreendentes, tal estratégia só podia contribuir para o desbaratar da imagem de qualidade dos vinhos portugueses. Ao insinuar o erro de tal política, o discurso de Maria de Lourdes soa a subversivo. Que desfaçatez a dessa mulher baixinha, de olhos grandes, com ares e manias de francesa, a apregoar sofisticações inusitadas! Felizmente, e para nosso bem, a história dar-lhe-ia razão.

Maria de Lourdes Modesto, na sua senda pela reabilitação – e, através sua obra, pela consagração – da nossa gastronomia, não esquece o vinho, elevando-o a expressão primordial da cozinha (e da cultura) tradicional portuguesa. O vinho que «reúne a quintessência da delicadeza», diz-nos; é este o vinho que Maria de Lourdes elogia. E é por esse desassombrado elogio, e por tantos outros concedidos para nosso deleite ao longo de décadas de trabalho, que ela merece os nossos mais sinceros – e afectuosos – elogios .

ps: O discurso completo está disponível aqui.

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