A festa do Vinho Verde passou pelo Porto. E veio para ficar.

Não há em Portugal vinho mais associado à festa do que o Vinho Verde. A sua mera menção faz ecoar na nossa mente uma banda sonora latente, quase inconsciente, composta por viras, malhões e sucessos mais recentes do cançonetismo popular, como o “hino” ao vinho de Paulo Alexandre ou o ska desbragado dos Despe e Siga (autores do mais bem sucedido caso de product placement dos vinhos da região). Por ser um produto do Minho é inevitável que assim seja. No imaginário minhoto, o mais colorido do país, o vinho é o sangue das tradições vivas. E ainda bem. Neste país de vinhos tão sérios e venerandos, a frescura e espevitada personalidade do Vinho Verde é um alívio. Que bem sabe folgar à revelia da etiqueta e do protocolo.

Entre 23 e 26 de Julho esse espírito festivo foi transportado para o Porto, cidade que sempre bebeu Vinho Verde, apesar do domínio ensurdecedor que o Alto Douro exerce na sua história. Junto ao rio, o Vinho Verde Wine Fest (VVWF) foi, justamente, uma festa. É a segunda edição do evento, e parecem estar garantidas tantas mais. A combinação não podia ser mais deliciosa: é um convite à descoberta de vinhos elevadíssimos, surpreendentes e ousados, deixando à porta as nossas mais arreigadas presunções de connoisseur, juntamente com o tom – expressão de um elitismo elegante que se quer interessado, nunca arrogante – postura casual assumida habitualmente nestes eventos.

É no VVWF, em ambiente de celebração, que se apresentam os ícones da região, vinhos de transcendente personalidade e que são, a meu ver, os melhores brancos produzidos actualmente em Portugal. Os Alvarinhos ainda imperam. Mas surgem já pretendentes ao estatuto real, vindos de todos os vales da região, do Lima ao Sousa, de todas as castas: Trajaduras modelares, Arintos exponenciais, Avessos inusitados e, essa enorme promessa da região, os principescos Loureiros. Só para falar nos brancos. Entremos no domínio dos rosés, todos eles de uma frescura e bouquet revigorante, e dos espumantes, de acentuada acidez que passa sublime na composição de bolha finíssima, e teríamos horas e copos tantos a discorrer sobre as fascinantes possibilidades desta região. E, nos tintos, o Vinhão, amaldiçoado por quase todos, agora um vinho de ensaios maravilhosos que fazem a diversão dos produtores e dos consumidores que gostam de atrevimentos vínicos.

O Vinho Verde é diversão gastronómica para os dias de festa e para os dias de todos os dias, aos quais incute a jovialidade e a alegria que permitem esquecer o aborrecimento das rotinas. Chatíssimo é, isso sim, o discurso que dita secamente “tinto para carne, branco para peixe”. Já nem falo na retrógrada preferência dos “maduros” sobre os “verdes”, decorrente dessa dicotomia generalizante tão grosseira como errónea – há tantos Alvarinhos mais maduros que os “maduros”, e tantos “verdes” de outras regiões (vide Bucelas, o vale paradisíaco do Arinto) que ensombram pela sua frescura tantos outros Verdes menores. Tão cansativa é a rigidez dessas doutrinas de ancestralidade duvidosa, verdadeiras party crashers do vinho.

O Vinho Verde é a comemoração do bom gosto vínico em toda a sua criatividade e irreverência. A edição do VVWF deste ano foi prova dessa postura, onde não faltaram as combinações gastronómicas, das clássicas às mais improváveis, as provas temáticas, os cocktails, as caras de surpresa e deslumbramento, os amigos reunidos, o ambiente descontraído no embalo do rio e das tardes de verão – e todos esses elementos fundamentais para que se enjeite, sem medo nem rodeios, a mais vibrante festa do vinho.

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